ENTREVISTAS THINKERS EM AÇÃO

Eva Dengler


Gerente de Programas e Relações Empresariais da Childhood Brasil

Bacharel em relações públicas, com especialização em comunicação social.

Atuou na direção das áreas de planejamento e atendimento de agências de comunicação, marketing e eventos de 1985 a 2001.

Em 2002 passou a dedicar-se ao desenvolvimento de projetos educacionais e sociais como consultora de empresas, entidades empresariais e organizações da sociedade civil, sempre com objetivo de integrar a responsabilidade social das empresas com o terceiro setor.

Atua para Childhood Brasil desde 2004 como consultora e foi responsável pela criação e coordenação do Programa Na Mão Certa.

Em 2015, assumiu a gerência de programas e relações empresariais da Childhood Brasil com o desafio de ampliar a escala e efetividade dos programas e projetos direcionados ao setor privado.

CHILDHOOD BRASIL

A Childhood Brasil tem como objetivo a proteção à infância e à adolescência.

O foco de atuação é no enfrentamento do abuso e da exploração sexual contra crianças e adolescentes.

Trabalha por meio de programas e projetos para que a proteção da infância e da adolescência seja pauta de políticas públicas e privadas.

Para isso, formam parcerias com empresas, sociedade civil e governos, e oferecem informação, soluções e estratégias para a questão da violência sexual contra crianças e adolescentes.

ENTREVISTA

Eva Dengler

Gerente de Programas e Relações Empresariais

junho de 2022

Oriana White

MODERADORA

Juliana Lotti

TRANSCRIÇÃO

 

A CONSTRUÇÃO DE UM PROGRAMA VENCEDOR


Para mim ficou muito claro no primeiro impacto que tive na VW, no primeiro dia que conheci esse assunto, logo nos 2 anos seguintes, de que isso era a missão da minha vida.

É uma missão pessoal, absoluta, veja eu sou uma pessoa de comunicação, sou formada em relações públicas, tenho muito tempo de experiência com empresas, então porque eu fiquei nisso?

Quando eu descobri que eu precisava chegar no caminhoneiro, para conversar com ele e a única forma que tinha para chegar nele, que a Childhood era como ONG, porque ninguém conhecia a Childhood, tinha 3 anos de existência no Brasil.

Como a gente ia chegar nas grandes empresas, para que a gente pudesse influenciar a empresa a falar com o caminhoneiro sobre isso, porque ele está viajando a trabalho, não está parado, e naquela época não tinha celular, internet, então a gente tinha que conversar com ele.

O máximo era um programa de rádio, tanto que temos uma parceria com a rádio revista até hoje, que é nossa embaixadora.

Então tinha a necessidade de conversar!

Na minha experiência com o setor privado durante 15 anos eu atendi as 35 maiores contas nacionais de marketing e publicidade, conhecia os presidentes das empresas.

Qual seria a forma?

Eu tinha que chegar nessas pessoas, contar que descobri esse problema e pedir que me abram a porta para conversar com as empresas de transporte que trabalham com eles, achando que tudo era muito simples na minha cabeça.

A gente foi se estruturando, criamos um pacto empresarial contra a exploração sexual contra crianças e adolescentes, fui buscar nossos aliados e o principal foi o Instituto Ecos, na época era o instituto mais importante de estabilidade social no Brasil.

Eles ficaram nos grupos focais com a gente porque entenderam o problema, eles já tinham o pacto do trabalho escravo, o pacto do trabalho infantil, então me ajudaram e foi fácil ter essa ideia do pacto com eles.

Para a Child tudo isso foi uma grande insegurança, eu estava inventando algo que era muito longe da realidade dessa instituição, a coisa andou.

Mas fui desafiada pela Child no sentido, só vamos lançar esse pacto se a gente tiver no mínimo 50 empresas que já tenham aderido antes de oficializar isso e me deram dois meses para isso.

Meu trabalho com as empresas era grande, consegui visitar as empresas, e em novembro de 2007 conseguimos lançar esse projeto com a presença da rainha Silvia no Brasil, com 75 empresas presentes.

Chegamos há 2000 empresas que assinaram esse pacto em 16 anos. É um programa que tem uma trajetória muito grande, é referência total de mercado.

É uma coisa muito interessante, como uma situação peculiar na minha vida pessoal e profissional, me levou totalmente para outro lugar. O que eu fiz foi aplicar meu conhecimento, com comunicação, empresas, pesquisa, que é o que eu sabia fazer, em prol de uma causa.

Transcrição Integral


ÍNDICE


  1. O dilema: continuar como think tank ou ser um negócio de impacto?
  2. O tema da violência sexual contra crianças e adolescentes
  3. A causa construindo uma profissão
  4. Pesquisa: a alma da childhood brasil
  5. A construção de um programa vencedor
  6. Programa “na mão certa” hoje pactuado com 2.000 empresas
  7. A pandemia impactando negativamente a causa da violência contra crianças e adolescentes
  8. A importância dos recursos das empresas
  9. Uma vida motivada pela causa
  10. Inovar o tempo todo
  11. Futuro: aperfeiçoando as ferramentas e deixando um legado

1. O DILEMA: CONTINUAR COMO THINK TANK OU SER UM NEGÓCIO DE IMPACTO?

A Childhood é um TT sim.

Tem muitas características da sociedade civil que trabalha exatamente com as mesmas perspectivas de um Think Tank.

Apesar de não termos nascido com esse propósito declarado, a nossa prática e a forma como a gente trabalha hoje a questão da violência sexual contra crianças e adolescentes, é absolutamente de um TT.

Tanto que em muitos momentos temos conflitos vamos continuar como TT ou vamos entrar para a operação?

Porque hoje a Child também tem essa característica tão peculiar, e tão diferenciada de uma organização da sociedade civil.

A gente opera os nossos próprios programas e projetos, coisa que não é muito comum, porque não atendemos vítimas, a gente trabalha na esfera do advocacy, na esfera das influências de políticas privadas e públicas.

Só que para fazer isso nós criamos programas, não é simplesmente um trabalho de TT que pesquisa, que estuda o fenômeno, que cria estratégia de argumento, fala com esses setores e faz a coisa se encaixar ali.

O nosso advocacy se tornou estratégico de diálogo, de fala, de lobby, mas também é um advocacy prático, ou seja, criei soluções e ferramentas para o poder público e para a iniciativa privada para fazer aquilo acontecer.

Então esse processo tem uma mistura muito grande entre você ser um TT e um negócio de impacto.


2. O TEMA DA VIOLÊNCIA SEXUAL CONTRA CRIANÇAS E ADOLESCENTES

Dentro desse desenho que a Child trabalha, acho que temos que começar pela reflexão que a violência sexual contra crianças e adolescentes que é uma causa muito nicho do nicho do nicho da violência.

É um problema extremamente complexo, envolve soluções quase estruturais então é muito difícil enfrentar esses problemas.

Começamos a pensar como nos organizar porque existem tantas facetas da violência sexual, como se manifesta, como problema, para prevenir essas manifestações.

Por onde a gente tem que agir?

Temos que agir em todo lugar, porque não tem como agir só em um lugar.

O conflito foi tão grande porque fica com uma sensação de que você está com um problema tão grande nas mãos, e ele não pode te paralisar.

Você tem que conseguir olhar para ele, por pior que seja o cenário, eu preciso dar passos para começar a resolver.

Então a gente começou a experimentar esse modelo que a gente chama de metodologia pautada no compromisso intersetorial, que é o fato de que um programa nosso tem que ter soluções com o setor privado, com o poder público e com a sociedade civil.

Toda vez que eu olho para uma ação que eu vou fazer, dentro de um programa, eu preciso pensar eu estou envolvendo essas três esferas na discussão?

Para que o lugar onde eu vou agir seja sistêmico.


3. A CAUSA CONSTRUINDO UMA PROFISSÃO

A minha chegada foi completamente não planejada. Foi na causa, na questão da violência sexual contra crianças e adolescentes.

Há 23 anos atrás estava num processo de transição da minha carreira, eu queria sair da área de comunicação, publicidade, marketing, endomarketing e todo esse processo.

Eu queria sair desse setor, sempre fui uma pessoa que mesmo dentro dessa área, eu construía muitas iniciativas que envolviam questões sociais. numa época que ninguém fazia isso.

E sem querer, comecei a trabalhar com institutos e fundações empresariais que na época estavam começando a ser criados, pensando em estratégias de comunicação para essas instituições, uma coisa menos comercial, menos marketeira.

E nesse momento em contato com a Fundação Volkswagen, que era um dos meus clientes, estava em uma reunião e do nada o presidente entrou na sala com uma revista na mão, onde na capa dizia “prostituição infantil, esse problema tem que acabar”.

Ele colocou a revista sobre a mesa e pediu para a diretora da fundação ver o tamanho desse problema, você que é da fundação, que cuida de criança, tenta descobrir o tamanho desse problema.

Eu estava na sala, por acaso, e quando ele saiu, a diretora imediatamente pegou a revista e colocou na minha mãe e disse “veja o tamanho desse problema pra mim”.

Olhei para a revista e nem sabia que isso existia, honestamente falando, isso foi em 2003.

Daí de lá, comecei a pesquisar o assunto, mas naquela época, eu não conseguia achar nada sobre o assunto, porque não se falava em nenhum lugar sobre isso.

Nada na internet, nem pessoas que falassem sobre, não havia clipping de jornal, revistas, nada, então era um problema completamente escondido.

Antes de dizer na fundação que não achava nada a respeito, fiz uma viagem com o presidente de uma outra empresa, em dezembro de 2003, que a gente ia visitar um projeto social de educação ambiental, que eu estava apoiando com ele.

Estávamos passando pela Dutra e comecei a olhar e procurar essas meninas, mas obviamente que não se vê nada, não é assim.

E ele me perguntou o que eu estava olhando tanto pela janela, o que eu estava procurando, daí contei para ele o que acontecia, e desacreditando na coincidência, ele disse que tinha acabado se ser convidado, na semana anterior, para ser conselheiro de uma ONG da rainha Silvia no Brasil, a Childhood.

Foi a primeira reunião de conselho que eu participei!

A discussão dos conselheiros foi que havia um rumor que caminhoneiros estavam facilitando esse problema e você com uma revista na mão, uma matéria falando disso, procurando, não consigo acreditar!

Enfim... foi algo que começou a vir para mim.

Essa causa tomou uma proporção na minha vida que eu fui abandonando o outro trabalho que eu fazia para ganhar dinheiro, e me tornei durante dois anos voluntária da Child.


4. PESQUISA: A ALMA DA CHILDHOOD BRASIL

Nesses dois anos como voluntária, a organização era muito pequena na época, a primeira coisa que a gente fez, foi uma pesquisa sobre o problema da exploração sexual nas estradas do país.

Financiada pela VW e por Arcor, se juntaram e disseram que pagariam essa pesquisa.

Não tinha dinheiro para mais nada, mas para a pesquisa sim, então eu tive que coordenar de forma voluntária, foi feita pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul, por indicação de uma pessoa do Banco Mundial.

Foi montada uma equipe de psicólogos que viajaram pelo Brasil para identificar esse problema e trouxeram resultados alarmantes.

A primeira reunião com os CEOs dessas duas empresas, a Childhood e a equipe de pesquisa, a gente chorou por horas, e a gente entendeu um mundo não revelado, que não existia nas mídias, em lugar algum.

Um problema seríssimo, como foi feita essa pesquisa, com uma estratégia muito interessante que a universidade criou.

Ninguém sabia como investigar um problema desse, que era quase uma pesquisa investigativa.

Como investigar um criminoso? se eu perguntar ela não vai me contar.

Então criaram uma estratégia de abordagem dos caminhoneiros.

Essa pesquisa se chama “o perfil do caminhoneiro brasileiro”.

Então entrevistava ele enquanto cidadão, para entender a vida deles nas estradas, eram psicólogos conversando com eles, entendendo os problemas deles, as dificuldades e no meio da pesquisa tem um recorte que a gente falava sobre vida sexual, como é tua vida sexual na estrada?

O psicólogo com todo jeito, treinado para essa conversa qualificada, conseguia entrar nos pontos chaves.

E assim recebemos os relatos espontâneos deles dizendo por exemplo que muitas vezes quando fazem programa de prostituição, era oferecida uma criança ou adolescente, pagavam 18-20 reais.

Assim começaram a chegar todos os relatos de como isso, naturalmente, acontecia.

E era tão natural para eles esse relato, tão incomum alguém falar que isso era um problema, e ainda diziam com toda naturalidade que quando fazem um programa com uma criança ou adolescente, porque as vezes é a mãe que oferece, ou a avó, eu estou ajudando aquela família, eu estou dando dinheiro.

Então na cabeça daqueles profissionais, que não era uma coisa planejada, “eu vou fazer uma coisa escondida, criminosa, eles não tinham esse pensamento.

E nesse caso a gente descobriu que esse caminhoneiro era um cara incrivelmente explorado em outros aspectos.

A vida dele... se você lê a primeira publicação da vida sexual dos caminhoneiros, você chora porque descobre a exploração sexual e você chora pelo que acontece na vida desse profissional, é horrível.

E esse relato todo, uma vez dito, todos disseram essa pesquisa não pode ficar entre 4 paredes.

Aí minha sugestão, como voluntária, na época, foi vamos ampliar o conhecimento dessa pesquisa, vamos discutir um pouco disso com o setor público, o privado e com a sociedade civil.

A gente fez grupos focais durante um ano, 42 especialistas dos três setores, com pessoas específicas na época, para apresentar o problema.

Esse trabalho todo que foi mediado, inclusive, por uma equipe da FGV, comigo, que tinha todas as facilitações, a ideia era tentar chegar numa conclusão, o que fazer com esse fenômeno, nesse contexto, nesse cenário, diante das informações que a gente conseguiu coletar, e a resposta final do grupo foi muito direta: Childhood Brasil você tem uma missão, precisa criar um programa.

Você quer resolver esse problema, vai ter que construir uma estratégia.

E a nossa decisão enquanto grupo, especialistas, foi onde está nossa solução?

Naquele momento (em 2005 - o mundo era totalmente diferente) a gente enxergava que o caminhoneiro era a nossa solução.

Se eu conseguisse construir com esse cidadão, um entendimento de que a violação dessa criança era um crime de fato que isso não era ajudar, que dar dinheiro não resolve, que a gente precisa tirar aquela criança daquela situação, que precisa denunciar aquela família, cuidar dessa criança em primeiro lugar, enfim... chegava-se (à conclusão) que essa era a nossa missão.


5. A CONSTRUÇÃO DE UM PROGRAMA VENCEDOR

Para mim ficou muito claro no primeiro impacto que tive na VW, no primeiro dia que conheci esse assunto, logo nos 2 anos seguintes, de que isso era a missão da minha vida.

É uma missão pessoal, absoluta, veja eu sou uma pessoa de comunicação, sou formada em relações públicas, tenho muito tempo de experiência com empresas, então porque eu fiquei nisso?

Quando eu descobri que eu precisava chegar no caminhoneiro, para conversar com ele e a única forma que tinha para chegar nele, que a Childhood era como ONG, porque ninguém conhecia a Childhood, tinha 3 anos de existência no Brasil.

Como a gente ia chegar nas grandes empresas, para que a gente pudesse influenciar a empresa a falar com o caminhoneiro sobre isso, porque ele está viajando a trabalho, não está parado, e naquela época não tinha celular, internet, então a gente tinha que conversar com ele.

O máximo era um programa de rádio, tanto que temos uma parceria com a rádio revista até hoje, que é nossa embaixadora.

Então tinha a necessidade de conversar!

Na minha experiência com o setor privado durante 15 anos eu atendi as 35 maiores contas nacionais de marketing e publicidade, conhecia os presidentes das empresas.

Qual seria a forma?

Eu tinha que chegar nessas pessoas, contar que descobri esse problema e pedir que me abram a porta para conversar com as empresas de transporte que trabalham com eles, achando que tudo era muito simples na minha cabeça.

A gente foi se estruturando, criamos um pacto empresarial contra a exploração sexual contra crianças e adolescentes, fui buscar nossos aliados e o principal foi o Instituto Ecos, na época era o instituto mais importante de estabilidade social no Brasil.

Eles ficaram nos grupos focais com a gente porque entenderam o problema, eles já tinham o pacto do trabalho escravo, o pacto do trabalho infantil, então me ajudaram e foi fácil ter essa ideia do pacto com eles.

Para a Child tudo isso foi uma grande insegurança, eu estava inventando algo que era muito longe da realidade dessa instituição, a coisa andou.

Mas fui desafiada pela Child no sentido, só vamos lançar esse pacto se a gente tiver no mínimo 50 empresas que já tenham aderido antes de oficializar isso e me deram dois meses para isso.

Meu trabalho com as empresas era grande, consegui visitar as empresas, e em novembro de 2007 conseguimos lançar esse projeto com a presença da rainha Silvia no Brasil, com 75 empresas presentes.

Chegamos há 2.000 empresas que assinaram esse pacto em 16 anos. É um programa que tem uma trajetória muito grande, é referência total de mercado.

É uma coisa muito interessante, como uma situação peculiar na minha vida pessoal e profissional, me levou totalmente para outro lugar. O que eu fiz foi aplicar meu conhecimento, com comunicação, empresas, pesquisa, que é o que eu sabia fazer, em prol de uma causa.


6. PROGRAMA “NA MÃO CERTA” HOJE PACTUADO COM 2.000 EMPRESAS

Hoje se fala muito em inovação, em negócios de impacto, atuação social, ativação social, movimentos ligados à sustentabilidade.

Tudo isso hoje parece muito normal, mas quando olha que isso tudo aconteceu há 20 anos atrás, a gente foi muito ousado e corajoso,

Levamos muita porta na cara, muito não, mas temos que entender que não podemos desistir, que vão existir problemas no meio do caminho, que a gente pode ter um sonho, uma ideia ótima, mas as vezes podemos estar um pouco deslocado no tempo e precisamos ter persistência de permanecer até o tempo certo chegar.

Pra mim esse tempo certo demorou 10 anos, de 2005 a 2015. Em 2015 a ONU decide lançar ODS (Objetivos do Desenvolvimento Sustentável) no mundo que dizem que a empresa tem que olhar para as questões de abuso e exploração sexual de crianças, têm metas específicas.

Eu preciso honrar a instituição para a qual eu trabalhei, porque nesses 10 anos em que não tínhamos esse apoio de entender que isso fazia parte da gestão do negócio, a Childhood manteve firme o programa, investindo muito nele anualmente para que ficasse vivo.

Voluntárias das empresas, que não pagavam nada e ganhavam tudo.

Então a gente construiu nosso caminho, asfaltou a estrada dentro das empresas dando de graça, e como era de graça, acabavam aceitando.

Mas era um fazer pontual, não era qualificado. Em 2015 eu encontro os ODS como um grande aliado, mas eu já tinha 2.000 empresas comigo, nesse movimento, então não era difícil eu qualificar essa conversa.

O programa Na Mão Certa, teve o 1.0, o 2.0 e agora e estamos no que eu chamo programa 3.0.

A gente vai evoluindo e a gente vai aproveitando o que o mundo nos dá de novo, a transformação do mundo vai nos ajudando a transformar os nossos problemas.


7. A PANDEMIA IMPACTANDO NEGATIVAMENTE A CAUSA DA VIOLÊNCIA CONTRA CRIANÇAS E ADOLESCENTES

A gente não teve nenhuma perda na pandemia, nenhuma. A gente é muito respeitado pelo nosso trabalho, as empresas que aderiram essa causa trabalham pra valer, ninguém saiu na pandemia, pelo contrário, porque a gente cresceu na pandemia, nesses dois anos, e muito.

Mas porque a gente cresceu, porque o problema piorou.

Voltou-se a ter relatos seríssimos de caminhoneiros dizendo que estava cheio de meninas e meninos nas rodovias de novo, por fome, miséria, desigualdade social ampliada.

A primeira coisa que você faz é colocar a criança ali para ganhar a comida da família, então é trágico.

A pandemia teve um impacto dos piores na nossa causa.


8. A IMPORTÂNCIA DOS RECURSOS DAS EMPRESAS

Em 2015, nessa virada de chave, a decisão conversada com as próprias empresas.

Porque a gente tinha um comitê muito grande de empresas consultivo, foi dito que tinha chegado a hora de qualificar o trabalho e que passariam a doar anualmente recursos para que pudéssemos manter o programa.

Começamos timidamente com 200 empresas, fomos crescendo e hoje temos anualmente média de 350 empresas que aportam recursos para manter o programa rodando e para que a gente possa continuar inovando.

Com plataformas digitais, com educação a distância, o negócio foi ganhando muito corpo. Se você não faz mudança constante, as empresas não permanecem.


9. UMA VIDA MOTIVADA PELA CAUSA

Eu sou uma pessoa muito auto inspirada.

Eu acordo todos os dias com ideias novas na cabeça e as pessoas me perguntam de onde elas vêm, eu não sei, algo do céu me alimenta e consigo ter ideias constantes.

Sou muito motivada e acho que essa causa social e o fato de eu ter encontrado na minha vida, algo em que eu pudesse usar meus conhecimentos, minhas habilidades, e ao mesmo tempo algo que fizesse a diferença na sociedade, numa instituição que me respeita, me dá autonomia, me dá possibilidade de ser criativa e ousar, é tudo de bom.

Mas nem sempre, para todo mundo, o trabalho é assim.

Acho que temos problemas na vida pessoal.

Quando se escolhe trabalhar no 3º setor, você abre mão de muitos confortos, regalias e mordomias de uma multinacional.

Primeira coisa você abre mão dessas questões, valores que não podem mais ser importantes. Se carreira, imagem, conforto, viagem forem importantes, não entre no terceiro setor.

Agora se você tem um sonho pessoa e sabe que a tua contribuição é mais importante do que aquilo que você recebe de benefício, essa troca não é muito igual, porque a gente entrega muito e muitas vezes não recebe tanto benefício, mas a satisfação pessoal, para mim pelo menos,

Eu fiz escolhas muito difíceis na vida, de romper com determinado trabalho, por escolha, cada um tem seu determinado momento, seu tempo para isso, mas valeu a pena.

Até 2015 eu trabalhei como consultora da Childhood a partir de 2015 eu entro para a organização como gerente de programas e me entregam na mão, não só o programa Na Mão Certa que eu estava construindo, me entregam muitos outros pepinos que precisavam ter a mesma solução.

Então hoje trabalho em vários programas do setor privado, em várias frentes, e assim, é altamente motivador.

Todos os dias quando você trabalha nessa causa, você descobre algo novo.

Cada vez que eu converso com uma empresa que me conta uma determinada situação, eu registro algo novo para mim, tenho que aproveitar.

Então é dinâmico demais esse movimento, ele é vivo, é orgânico.

Eu lido com problema social, que é do nosso dia a dia, da nossa vida.

Não é um produto embalado que sai da máquina, então é um outra realidade.


10. INOVAR O TEMPO TODO

Como a gente faz para se manter nesse nível de motivação?

Entendendo que a gente precisa se atualizar e inovar o tempo todo.

No caso do nosso trabalho na Child são as nossas pesquisas.

Essa mesma pesquisa do caminhoneiro que eu fiz a primeira vez, eu repito, desde que o programa existe, a cada cinco anos.

E a gente tem feito um estudo de como o nosso trabalho evoluiu, como consigo impactar a mudança de comportamento dos caminhoneiros.

E agora em 2021 foi a última pesquisa, onde eu descubro, infelizmente, que os mesmos problemas de infraestrutura no país, que os caminhoneiros tinham em 2005, eles continuam tendo, não melhorou nada em 16 anos, eu diria que piorou muito.

Essas informações são vitais para a gente, para entender como a gente dialoga com essa pessoa que a gente quer do nosso lado.

Preciso entender quem essa pessoa a qual estou pedindo apoio, para ser meu agente de proteção nas estradas, para denunciar os casos, chamar a polícia, chamar o conselho tutelar.

Eu estou treinando esse ser humano para isso como voluntário, então o que eu tenho que ter de diálogo, de troca com ele, o que eu tenho que entregar para ele de olhar e de cuidado para que ele entenda que esse programa é muito legal, que eu ajudo as crianças e eles me ajudam nas empresas.

A gente começou a construir esse caminho tão inteligente que o programa Na Mão Certa era uma ferramenta que mudava a cultura da empresa em relação ao caminhoneiro e nessa mudança eu conseguia conquistar o caminhoneiro, como meu aliado.

As empresas que estão com a gente, fazem ESG há 16 anos, nada mudou, eles só estão intensificando as coisas, melhorando ainda mais, aportando mais, fazendo planos mais detalhados, se preocupando mais, porque o chefe, diretor da empresa quer mais coisa.

Então hoje a gente tem que mostrar valor agregado, mostrar humanização na empresa, cuidados com direitos humanos, coisas que ninguém olhava.

A minha motivação hoje para continuar, são primeiro pesquisas para continuar entendendo como esse problema.

E mais que tudo, eu estou descobrindo que o problema da violência sexual no mundo está mudando de lugar, ele está saindo do nosso ambiente cotidiano, do ambiente presencial físico, para o ambiente virtual.

Então começa uma outra fase porque até agora a gente enfrentou esse problema presencialmente, mas agora, como a gente enfrenta ele virtualmente?

São novas pesquisas, novos estudos.

Hoje, 7% dos caminhoneiros brasileiros contaram pra gente, na última pesquisa, que recebem ofertas de programa sexual com crianças e adolescentes pelo WhatsApp.

Não é mais no posto de gasolina onde ele parava para comer, ir ao banheiro, não se vê mais a criança, isso é muito sério.

Estamos entrando num outro mundo e nos próximos 5 anos será outro ainda. Então a gente sempre se desafia.

Como a nossa causa é criminosa, ligada a todos os tipos de crime organizado: tráfego de pessoa, de drogas, de armas, tudo usa criança e usa criança nesse esquema para exploração sexual, então estamos ligados à um contexto muito complexo.

Todo dia tem uma novidade para resolver, todo dia temos um boletim de ocorrência.


11. FUTURO: APERFEIÇOANDO AS FERRAMENTAS E DEIXANDO UM LEGADO

O que penso no futuro?

Como você perguntou, quero consolidar o programa Na Mão Certa de fato como uma ferramenta ESG, com plataformas, digitalizado, educação à distância, a tecnologia tem que entrar nesse processo totalmente.

Por outro lado, entender o mundo virtual e ao mesmo tempo construir um time de pessoas, mais jovens que eu, que possam continuar esse legado.

Como em toda instituição, quando você fala do terceiro setor, você tem que lembrar que você tem uma questão de sucessão.

Quem vai continuar o legado que foi construído?

Na Child temos a sucessão dos nossos conselheiros, da nossa fundadora, mas tema secessão de quem está aqui, na linha de baixo.

Eu nunca abri e nunca vou abrir mão de estar nesse lugar onde estou, que é o lugar da execução, do aprender, do afazer, do construir.

Mais pra frente me sentiria muito honrada em fazer parte do Conselho, vou aceitar porque sei que tenho muito a contribuir, mas não me coloque numa posição de gestão, não é o meu lugar, meu lugar da missão é de construir soluções.

Tenho que ser inspiradora para quem está comigo, tenho que ter habilidade de ouvir quem trabalha comigo, e quem faz as coisas do campo para poder entender o que vem de riqueza de informação, para poder construir soluções colaborativas.

Como foi o programa Na Mão Certa que foi construído ao longo de 16 anos, é o carro chefe na organização, mas desde 2013 a gente construiu o programa para grandes obras e empreendimentos, que é uma outra área da Child que eu lidero.

Quando você tem obra de construção civil e você leva 10-15 mil homens trabalhadores que devem morar em alojamentos, em canteiros, esses homens vão ficar procurando programas sexuais a noite, nos finais de semana.

Então como você prepara esses homens, porque prostituição não é problema no Brasil, não é crime, mas não pode fazer um programa sexual com uma criança ou adolescente.

Então a gente constrói com essas empresas, com esses trabalhadores, essa cultura.

Ano passado a gente fechou um grande acordo com o BID, que nos encontrou no Brasil como única referência, melhor instituição do país trabalhando com empresas e a gente construiu uma metodologia de enfrentamento para grandes obras.

Porque ele financia grandes obras e eles não queriam mais esse impacto nas obras e pediu para eu compartilhar a metodologia, fizemos um lançamento para América Latina e Caribe e foi um sucesso.